Reunidos a convite de companheiros de longa trajetória nas lutas sociais, motivados pela crescente agitação de ideias de caráter fascista no cotidiano brasileiro e pela percepção de uma preocupante ausência de ação militante consistente por parte da esquerda, realizamos um encontro marcado pela escuta atenta, pela reflexão crítica e pelo senso de urgência histórica.
Participaram desse momento Terezinha, Vicente, Márcia, Sandra Helena, Zákia Barroso, Manfredo, Martiniano Cavalcante, Menelau e Rafael, compondo um grupo cuja experiência acumulada carrega décadas de enfrentamentos políticos e compromisso com a transformação social. A exposição inicial, conduzida por Vitor Marques, trouxe uma leitura estruturada do atual quadro eleitoral.
Sua análise, ainda que permeada por certo otimismo quanto aos desdobramentos imediatos do processo eleitoral, não deixou de destacar elementos profundamente inquietantes. Entre eles, o crescimento visível e articulado da extrema direita, que tem se consolidado não apenas como força eleitoral, mas como presença ideológica ativa no tecido social. Trata-se de um fenômeno que não pode ser reduzido a ciclos eleitorais, pois expressa uma reorganização mais profunda de valores, discursos e formas de mobilização.
Um dos pontos centrais levantados foi a contradição evidente entre as expectativas de mudança social geradas pela eleição de Lula e a realidade concreta de um Congresso Nacional amplamente dominado por forças conservadoras, reacionárias e, em muitos casos, alinhadas a práticas e visões de mundo que flertam com o autoritarismo.
Estes elementos da realidade, que despontaram já em nossa primeira reunião, foram se consolidando e aprofundando nas reuniões seguintes. À medida que o grupo se ampliava — com a incorporação de novos participantes igualmente comprometidos com a reflexão crítica e a ação transformadora —, o debate ganhou maior densidade e passou a incorporar diferentes leituras sobre os caminhos possíveis diante do cenário apresentado.
Nas reuniões subsequentes, destacou-se com maior nitidez a compreensão de que o avanço da extrema direita não é apenas um fenômeno conjuntural, mas resultado de um trabalho contínuo de enraizamento social, ocupação de espaços culturais e construção de narrativas simples, porém eficazes, capazes de dialogar diretamente com a experiência cotidiana da população.
Também se consolidou a percepção de que há um descompasso significativo entre a institucionalidade política e a vida real das pessoas. Enquanto o debate público muitas vezes se mantém restrito a disputas formais e institucionais, amplos setores da sociedade vivenciam, de forma concreta, os efeitos da precarização do trabalho, da insegurança econômica e da fragilização de direitos, sem encontrar canais efetivos de escuta e organização.
Outro ponto recorrente nas discussões foi o reconhecimento de que a esquerda, em suas diversas expressões, tem enfrentado dificuldades para se reconectar com esses territórios sociais. Seja pela excessiva centralidade nas disputas institucionais, seja pela fragmentação organizativa, há uma lacuna evidente na construção de presença política cotidiana, capaz de disputar valores, oferecer referências e reconstruir laços de pertencimento coletivo.
No plano mais estrutural, aprofundou-se a análise de que esse cenário político está diretamente vinculado aos efeitos prolongados da crise do capitalismo contemporâneo e à hegemonia de políticas neoliberais que, ao longo das últimas décadas, têm intensificado desigualdades e produzido uma sensação difusa de abandono e desproteção social.
Nesse ambiente, reforçou-se o entendimento de que a ausência de alternativas de esquerda com caráter claramente anticapitalista não apenas limita o horizonte de transformação, como também abre espaço para a apropriação do descontentamento social por forças que operam dentro da lógica do próprio sistema. A extrema direita, ao se apresentar como “antissistema”, tem conseguido canalizar frustrações legítimas, desviando-as de suas causas estruturais e direcionando-as contra governos progressistas, políticas públicas e instituições democráticas.
Ao longo dos encontros, emergiu com força a necessidade de superar uma postura meramente analítica. Se, por um lado, a compreensão do cenário é condição indispensável, por outro, tornou-se consenso entre os participantes que ela precisa estar articulada a um esforço concreto de reorganização da ação política.
Foi nesse momento que, partindo da defesa de pautas específicas com forte apelo social — como o fim da jornada de trabalho 6×1 e a implementação da Tarifa Zero no transporte público —, o grupo passou a discutir a necessidade de uma iniciativa de maior alcance. Ganhou corpo a ideia de uma campanha de caráter geral, capaz de unificar diferentes demandas sob um eixo político mais amplo, com forte presença nas mídias digitais e centrada na defesa da soberania nacional e na crítica a um Congresso cada vez mais percebido como distante e hostil aos interesses populares. Esse movimento de formulação, no entanto, não se deu de forma isolada. Ao avançar nas reflexões, o grupo identificou convergências com iniciativas já em curso e, em particular, decidiu somar-se ao processo de debate e elaboração política impulsionado pela Atitude Popular, reconhecendo a importância de construir respostas coletivas mais amplas e articuladas.

Em cima: Heloisa Gurgel, Rita Silveira, Lígia Callado, Rafael Silva, Ângela Julita e Valton Miranda
No meio: Rita Ferreira, Vicente Flávio, Terezinha Façanha, Eduardo Barbosa, Sousa Júnior, Adriano Pinheiro e Zákia Barroso
Embaixo: Osmar Ponte, Martiniano Cavalcante, Sandra Helena, Marcia Frezza, Manfredo Oliveira e Sara Goes
O conjunto dessas reuniões não apenas aprofundou o diagnóstico inicial, como também evidenciou um ponto central: o momento histórico exige mais do que resistência — exige capacidade de reinvenção política.
Foi a partir desse acúmulo que o grupo deu um passo adiante, deixando o terreno exclusivo da reflexão e assumindo, ainda que de forma inicial, uma direção concreta de intervenção. Consolidou-se a decisão de estruturar uma campanha de caráter geral, sintetizada na palavra de ordem “Brasil Soberano e Congresso Amigo do Povo”. Mais do que um slogan, trata-se de um eixo político capaz de articular a defesa da soberania nacional com a crítica direta à atual configuração do poder legislativo, amplamente capturado por interesses alheios às necessidades da maioria da população.
Como desdobramento imediato dessa definição, deliberou-se pela elaboração de um manifesto público que expresse, com clareza e firmeza, o diagnóstico construído coletivamente e as bases de um novo ciclo de ação política. Paralelamente, iniciou-se a construção de um site e de instrumentos de comunicação e mobilização — com forte presença nas mídias digitais — voltados à difusão das ideias, à ampliação do debate público e à coleta de adesões e contribuições.
A intenção que orienta esse movimento vai além de uma campanha pontual. Busca-se criar as condições para o surgimento de um espaço permanente de reflexão crítica e, ao mesmo tempo, de ação política concreta. Um instrumento capaz de intervir no cotidiano, disputar consciências, tensionar o cenário eleitoral e contribuir, de forma ativa, para a construção de alternativas reais de transformação social.
Nesse sentido, o próprio processo de construção do movimento já se afirma como prática política: não apenas como preparação para agir, mas como ação em si — enraizada na realidade, conectada às contradições do presente e orientada por um horizonte de mudança estrutural, porque não há tempo a perder.


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