Por Sara Goes
No texto que escrevi sobre o jornal das crianças e a redação rasgada, existe um aspecto que mencionei rapidamente, mas que ficou martelando na minha cabeça nos últimos dias. O Dia das Mães aproximou essas memórias da superfície.
Meu pai trabalhava em três turnos de vida diferentes. Durante o dia, era funcionário do setor de TI da Chesf, numa época em que mexer com computadores não tornava necessariamente o trabalho mais rápido. À noite, atravessava Fortaleza para dar aulas de matemática numa escola da Parangaba. Nos fins de semana, instalava PABX com dois colegas da Chesf, algo moderníssimo para os anos 90.
O que lembro da minha infância não é apenas da menina que assistia televisão demais ou da criança politizada precocemente pelos telejornais. O que ficou em mim foi uma grande ansiedade pela espera.
Eu lutava contra o sono para conseguir alguns minutos de conversa antes que ele desabasse de cansaço. Assistia aos noticiários como quem se prepara para uma reunião importante. Tentava em vão deorar nomes de presidentes, índices econômicos, crimes, acidentes, chacinas e conflitos internacionais porque imaginava que aquilo poderia render assunto suficiente para segurar meu pai acordado por mais alguns minutos… o resíduo daqueles dados não durava o suficiente entre os passos do meu pai até a cozinha.
Hoje lamento que aquela ansiedade infantil era menos sobre curiosidade política e mais sobre presença. Eu queria participar da vida adulta dele. Queria oferecer alguma coisa útil para um homem esmagado por jornadas de trabalho praticamente intermináveis. Por isso certas estatísticas me atingem de maneira tão pessoal hoje. Cerca de 14 milhões de brasileiros vivem na escala 6×1, um modelo que estabelece seis dias de trabalho para apenas um de descanso. A jornada predominante continua sendo de 44 horas semanais. Mais de 1,4 milhão de trabalhadoras domésticas estão inseridas nesse universo de jornadas extensas, enquanto mulheres representam 54% dos empregos com essa carga horária.
Os números ajudam a entender aquilo que muitas crianças sentem sem conseguir formular. Mais de 11 milhões de mulheres criam filhos sozinhas no Brasil. Hoje, 50,8% dos lares brasileiros têm liderança feminina. Ao mesmo tempo, 83% das mulheres acumulam dupla jornada, conciliando trabalho remunerado e cuidado doméstico, enquanto 45% não contam com rede de apoio.
Quando penso no meu pai chegando em casa perto da meia-noite depois de passar o dia inteiro entre computadores da Chesf, fórmulas matemáticas e instalações de PABX, percebo que havia uma estrutura inteira organizada para sequestrar o tempo das famílias. O esgotamento não era falha individual. Era consequência de um modelo de trabalho tratado como normal durante décadas.
A própria CLT ainda permite uma folga a cada seis dias trabalhados. Agora, propostas que discutem a redução da jornada para 40 horas semanais sem redução salarial começam a avançar. Em abril de 2026, a comissão especial aprovou a admissibilidade das propostas relacionadas ao tema. Não surpreende que o apoio ao fim da escala 6×1 seja maior justamente entre quem ainda atravessa os anos mais violentos da vida produtiva: 82% dos brasileiros com até 40 anos defendem o fim desse modelo sem redução salarial.
Demorei muitos anos para entender que aquela ansiedade infantil não desapareceu quando cresci. Ela apenas mudou de forma. A menina que precisava decorar notícias para merecer atenção virou uma mulher permanentemente alerta, com dificuldade de descansar sem culpa, como se afeto precisasse sempre ser conquistado através de desempenho, inteligência ou utilidade. Existe uma consequência psicológica silenciosa em crescer tentando disputar espaço com a exaustão dos adultos. A criança aprende cedo que interromper o cansaço alheio parece egoísmo. Na vida adulta, isso frequentemente se transforma em hipervigilância, ansiedade crônica e uma incapacidade quase física de relaxar perto de quem se ama.
Hoje, olhando para meu filho, percebo que minha maior ambição não é criar uma criança “forte”, “madura” ou “precoce”, como tantas vezes romantizam quando falam de infância pobre. Quero apenas que ele nunca sinta a obrigação de disputar atenção com a exaustão dos adultos. Uma criança não deveria precisar transformar tragédia em assunto para merecer alguns minutos de presença.
É nesse contexto que a Atitude Popular vem propondo aos movimentos sociais e entidades populares a construção de uma campanha nacional em defesa da Soberania Nacional e de um Congresso Amigo do Povo. Um manifesto da campanha está sendo redigido por um grupo de intelectuais do Ceará que discute formas de influir no processo eleitoral deste ano a partir de pautas concretas da vida cotidiana da população trabalhadora.
O fim da escala 6×1 dialoga diretamente com esse debate. Não se trata apenas de economia ou legislação trabalhista. Trata-se também do direito das famílias ao tempo, da possibilidade de convivência e da reconstrução de laços humanos esmagados por décadas de precarização.

